Calote condominial: a crônica da asfixia financeira em SP

Calote condominial: a crônica da asfixia financeira em SP

A inadimplência condominial em São Paulo não é um acaso. É um projeto.

No primeiro trimestre de 2025, o índice de inadimplência em condomínios paulistas atingiu os alarmantes 17%, segundo a plataforma uCondo. Não se trata de um deslize estatístico, mas de um retrato fiel da tragédia cotidiana que se desenrola nas assembleias e balancetes de milhares de edifícios. A corda arrebentou — e não foi por culpa dos síndicos.

Outros dados corroboram o quadro de colapso: a administradora Lello, gigante do setor, registrou 5,01% de inadimplência em 2024.

O Sindiconet apontou 4,73% em maio. Números que variam, sim, mas todos apontam para a mesma direção: o sistema está implodindo. O morador não dá calote por gosto. Dá porque está sufocado.

A anatomia do colapso: cruzamento de fatores, não de culpa

Há quem ainda queira responsabilizar o cidadão inadimplente, mas isso é analfabetismo econômico. O rombo condominial é apenas a manifestação visível de um tripé de destruição:

1 – Endividamento recorde: Segundo a CNC, 8 em cada 10 famílias brasileiras estão endividadas. Uma em cada três já admite: não tem como pagar. É um campo minado onde a inadimplência condominial é apenas mais uma explosão. Não há “mau pagador”, há insolvência sistêmica.

2 – Inflação de supermercado: O IPCA segue em alta — e a conta bate direto em dois grupos vitais: alimentação e habitação. O preço do arroz e do aluguel engoliu o espaço do boleto condominial. Na hora de escolher entre o leite das crianças e o fundo de reserva, o morador decide sobreviver. É cruel, mas é racional.

3 – Juros de estrangulamento: A política monetária do Banco Central, com a Selic mantida em patamares punitivos, transformou o crédito em miragem. Rolagem de dívidas virou pesadelo. Não há acesso a capital para respirar. O governo federal assiste passivamente. Brasília finge que não vê.

Síndicos na linha de frente do colapso

Nos condomínios, o resultado é devastador. Zeladoria comprometida, segurança precária, manutenções suspensas. A inadimplência se traduz em destruição de patrimônio.

Imóveis com inadimplência estrutural acumulada se desvalorizam até 30%. Viver em um condomínio assim é carregar um ativo podre — e ninguém quer comprar.

A Justiça, por sua vez, virou fábrica de execuções condominiais. O aumento de protestos em cartório beira os 700%. Juízes viraram bombeiros de uma fogueira iniciada nos conselhos monetários e nas falas desconectadas dos tecnocratas de terno.

Para o advogado Felipe Faustino, especialista em Direito Condominial, “a cobrança judicial é legítima, mas ineficaz sozinha”. “Sem medidas de recuperação e renegociação sistematizadas, o ciclo de inadimplência continuará a crescer”, completa.

O preço da insensibilidade econômica

A inadimplência condominial é a ponta do iceberg de uma economia que transfere seus fracassos para os ombros do cidadão comum. É a socialização do prejuízo em sua forma mais perversa: quem paga em dia arca com o rombo alheio, via rateios emergenciais, serviços cancelados e qualidade de vida em erosão.

Não adianta responsabilizar o síndico, nem a administradora. O problema é macroeconômico, mas sua bomba explode no microespaço da convivência condominial.

Acordar é preciso

Chegou a hora de debater políticas públicas e mecanismos de reestruturação de dívidas condominiais com a mesma seriedade com que se discute o refinanciamento de empresas ou bancos. Porque, ao contrário das grandes corporações, os moradores não têm para onde correr.

Até quando Brasília vai ignorar esse Brasil que vive em condomínio?

Fonte: O Antagonista

 

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