Elie Horn, fundador da Cyrela diz: ‘Ganhe dinheiro, mas doe ainda mais’
Bilionário que prometeu destinar em vida 60% da fortuna para causas sociais defende maior engajamento de empresários com a filantropia
Victória Pacheco / São Paulo (SP) – Para o empresário Elie Horn, o dinheiro deve cumprir uma função primordial: fazer o bem. Foi com esse pensamento que o fundador de uma das maiores incorporadoras de imóveis de luxo do Brasil, a Cyrela, se tornou o primeiro latino-americano a aderir ao “Giving Pledge”, em 2015.
Criado por Bill Gates e Warren Buffett, o movimento incentiva pessoas e famílias bilionárias a doar pelo menos metade do patrimônio à filantropia, em vida ou em testamento. Atualmente, o pacto reúne mais de 250 signatários de 30 países —Horn e sua esposa, Suzy, continuam sendo os únicos brasileiros da lista.
Desde que se comprometeu a abdicar de 60% de sua fortuna, estimada em R$ 3 bilhões pela Forbes, Horn trabalha para engajar outros brasileiros na causa.
Ele é idealizador do Movimento Bem Maior, associação dedicada ao fortalecimento da filantropia no país, que já mobilizou R$ 130 milhões, conectando investidores a mais de 250 organizações sociais. Outra criação sua é o Instituto Liberta, que combate a exploração sexual de crianças e adolescentes.
“Doações são feitas para reparar eventuais injustiças”, afirma Horn. “Se a pessoa não tem dinheiro, ela ajuda de outra forma. O advogado pode prestar serviço pro bono, e o médico pode atender de graça. O empresário trabalha com dinheiro, então a obrigação dele é doar dinheiro.”
Ele conta que aprendeu pelo exemplo: o pai deu à caridade 100% do patrimônio conquistado, anos após se recuperar financeiramente da falência que sofreu na década de 1950, quando era comerciante de tecidos no Líbano.
O episódio dramático marcou a vida do caçula de oito irmãos, nascido anos antes na Síria, e acabou trazendo a família ao Brasil.
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“Quem passou por problemas [financeiros] tem essas sequelas. Uma delas é positiva: a disposição para fazer o bem”, diz ele, que estima ter doado 30% da fortuna até agora.
À Folha o empresário fala sobre o sentido da doação, o papel da filantropia para a justiça social e as responsabilidades dos mais ricos.
“Entrei no Giving Pledge porque é uma entidade que reúne pessoas que têm dinheiro e querem doar dinheiro. Há quem dê 90% do patrimônio ou até 99%, como o Bill Gates.
No Brasil, essa proporção é mínima. A diferença está nos costumes e nas convicções morais. Mas vejo uma evolução na conscientização sobre o assunto.
Doar é algo inerente ao ser humano em termos de nobreza, de humanização e de achar o significado da vida, das coisas e do dinheiro, que tem uma função primordial de fazer o bem.
Fazer o bem é bom. Fazer com que os outros façam o bem é ainda melhor, porque o mundo é muito grande e, sozinho, não se resolve nada. Se consigo contagiar cem empresários a doarem, o volume aumenta, e a consequência para a sociedade é mais benéfica.
Luto todos os dias por isso. Falo da importância de fazer o bem e de ajudar ONGs. Alguma coisa consegui. São 15 empresas, incluindo a Cyrela, que doam 1% dos lucros aos seus projetos sociais.
Para convencer empresários, falo do significado do dinheiro. Falo de um Deus que quer justiça para todos.
Conto que, desde que fiz meu IPO [sigla em inglês para oferta pública inicial], as ações da empresa [Cyrela] subiram 30 vezes, na média. Isso não é startup, não é tecnologia. É construção. São pedras de barro. E, desde que me comprometi a doar os 60%, o negócio cresceu ainda mais.
Foi essa a resposta de Deus à minha promessa. Parece infantil, mas não é. Quem tem fé acredita.
Quem não doa é porque não sente. Tem gente egoísta, tem gente altruísta. Faz parte do mundo ter um pouco de tudo.
Meu avô, que não conheci, levantou dinheiro na Inglaterra em 1914 para ajudar pobres órfãos da Síria. Minha mãe falava o tempo todo sobre provérbios do bem. Meu pai doou 100% do que tinha para obras sociais. Tudo isso fica no subconsciente.
Quando meu pai faliu, eu tinha sete anos. Passamos por uma fase difícil, sem dinheiro e dependendo de terceiros para sobreviver. O que ficou para mim do período foi o exemplo de duas pessoas, meu pai e minha mãe, que realmente queriam e faziam o bem, apesar das dificuldades.
Lá atrás, fazer o bem significava ajudar uma mulher na chuva esperando o ônibus ou reunir dinheiro com amigos para dar a um mendigo na porta do colégio. Fazer o bem é diferente para um jovem, é restrito a um círculo pequeno. Minha noção se ampliou e hoje vejo o bem como algo que abrange tudo. Sem o bem o mundo não existiria.
Aprendi que ninguém deve ser forçado a dar aquilo que não quer. Não se deve obrigar a doar. O negócio é convencer, abrir o diálogo. Forçar não funciona. Na marra, nada sai.
Educação é o mais importante, porque ela corta o ciclo da ignorância. É fundamental educar bem os filhos e a família.
“A pior coisa do mundo é quando um pai ganha muito dinheiro e diz: ‘Quero dar para meu filho aquilo que eu não tive’. Quando o pai pensa assim, ele mata o filho. Se o pai trabalhou e comprou um carro importado, isso é uma compensação de valores. Mas quando o filho herdeiro ganha um carro que não merece, isso é o fim dele.”
Elie Horn – Empresário e filantropo
Nossa obrigação é melhorar a sociedade como um todo. Se fizermos isso, daremos conteúdo à vida e ao ser humano.
Lucro tem que ser preservado, é preciso ganhar dinheiro. Sem lucro não tem empresa. Existe, porém, outra etapa, que é dar uma finalidade ao dinheiro.
Nunca se pode roubar e ser desonesto, mas é preciso ganhar —e muito. Minha mensagem para as pessoas é: ganhem muito dinheiro, mas doem ainda mais.
Não é necessário acreditar em Deus para fazer o bem. Usar o bom senso leva você a isso. Muitas pessoas são céticas e ajudam. São coisas diferentes. Eu diria que quem tem fé ajuda mais. Não quer dizer que quem não tem fé não o faça.
Doo muito antes do Giving Pledge, há 50 anos, quando comecei a enriquecer. Ainda não estou satisfeito. Sinto que poderia fazer muito mais.
Em um evento do Liberta [instituto que fundou] em março, uma mulher subiu ao palco para contar que foi abusada em casa até os 11 anos e prostituída até os 32. Ela dizia que o Liberta a ajudou a recuperar o próprio corpo e a sair dessa escravidão.
Ouvi o relato numa terça-feira de manhã. Chorei naquela manhã, depois novamente à tarde e à noite. Ela foi uma entre milhares de meninas nessa situação. É por isso que precisamos fazer sempre mais.
Sou otimista em relação ao futuro da filantropia. Nasci otimista. Temos a obrigação de tornar o mundo mais justo. Se quisermos, conseguiremos.”
Fonte: Folha

